A arte do ofício


        Moisés Diniz, "Luthier" de flautas ou, como prefere, "Fluthier", aprendeu seu ofício com o flautista e também "Fluthier" Marcos Kiehl. Mas, antes de falarmos deste encontro, uma breve digressão se impõe.

        Atualmente a concepção de artista que prevalece para a maior parte das pessoas é fortemente influenciada pelo ideal romântico do "gênio criador", que faz do artista aquele homem iluminado que num ímpeto criativo, embebido em inspiração divina, realiza sua obra original. Assim, se o artista é aquele que cria algo original a partir do nada apenas com sua genialidade, então o conceito de autoria também passa a depender desse ideal de originalidade. A arte passa a ser fruto exclusivo de seres iluminados detentores de um dom. Esquece-se que do nada, nada se cria.

        No entanto, a imagem que se faz do artista não foi sempre essa. Durante muito tempo a figura do artista estava muito mais próxima à figura do artífice do que desse gênio divinamente inspirado. No contexto do Renascimento, por exemplo, o artista era contratado para realizar determinado afresco com valores e prazos de entrega pré-determinados e, para tanto, contava com sua equipe de aprendizes e auxiliares. O resultado é que grande parte do trabalho - de criação inclusive - era realizado por seus aprendizes.

        Sob este mesmo registro, nos ateliês dos grandes artistas do século XVII, como Rembrandt e Rubens, para ficar em apenas dois exemplos, o trabalho também era realizado, em larga medida, por seus discípulos. É por isso que hoje é possível se pensar que um quadro no qual a assinatura de Rembrandt é considerada autentica, o resto da obra pode ser considerada uma cópia. Comete-se aqui o equívoco de se aplicar o conceito contemporâneo de autoria a um contexto que não o comporta.

        O conceito de autoria dentro do paradigma antigo (até o Século XVII) está muito mais relacionado à autoridade que o artista/artífice tinha sobre dado discurso do que ao ideal de originalidade derivado do "gênio criador" romântico. É desse modo que se atribui a autoria dos poemas homéricos a Homero, é desse modo também que se reconhece os autores dos textos bíblicos. O autor é aquele autorizado a representar dado discurso. Sendo assim, os livros bíblicos atribuídos a João, por exemplo, não foram escritos pela pessoa histórica de João, e sim, por àqueles autorizados a representar o discurso de João.

        Os discípulos de Rembrandt eram autores de seus quadros tanto quanto seu mestre.

        Se retomarmos a relação entre o artista e o artífice sob esse registro perceberemos que o verdadeiro artífice traz consigo muito do artista. Isso, ao menos, até o século XVII, antes do desenvolvimento do Romantismo. Assim, só aquele que é capaz de realizar seu trabalho de acordo com o rigor e a excelência que uma obra de arte requer pode ser considerado verdadeiramente um artífice. Talvez o ofício do Luthier seja um dos últimos no qual o artífice, no sentido que buscamos explicitar, se mantêm. Ou seja, o trabalho do Luthier - ou melhor, do Fluthier - é aquele que requer o mesmo grau de excelência que uma obra de arte.

        Essa breve explanação parece explicitar a acuidade e a dedicação com que Moisés Diniz realiza seu trabalho enquanto artífice. E, se Marcos Kiehl foi mestre nesse ofício, certamente seu discípulo deu continuidade a qualidade de seu trabalho. E, mais que isso, como diria Nietzsche, "retribui-se mal a um mestre, continuando-se sempre apenas aluno".

Thiago Rodrigues
Filósofo

CNPJ: 97.554.045/0001-40 - Inscrição Estadual: 146.271.105.117 - Endereço: Rua. Manuel Morais Pontes, 46 - Vila Albertina São Paulo/SP - CEP 02373-000


Volta ao início